Novas Frequências 2014

De onde vem a música hoje?

IHF_Magalha_es-096

Por: Fausto Fawcett (Jornalista, autor teatral, escritor de ficção científica e compositor brasileiro)

De todas as aparelhagens, corpos, ambientes, invólucros tecnotrônicos e máquinas devidamente penetrados, gambiarrizados, desviados, potencializados, recriados, reciclados, desinventados, desconstruídos, improvisados, reestruturados por programações digitalizantes, por cirurgias em equipamentos, transplantes de componentes de instrumentos antigos para instrumentos modernos, de instrumentos atuais para instrumentos antigos, de caixas de som brutalizadas por furadeiras cheias de ritmos sincopadamente doentios, harmonizações lancinantes e micro melodias que improvisam explotations de audição nas caixas devidamente brutalizadas. De onde vem a música hoje? Muito além das experiências atonais, muito alem das experiências engendradas em todos os gêneros ditos musicais espalhados por todos os primitivismos, dodecafonismos romantismos, classicismos, macumbagens selvagens, rituais de xamanismo cantado, melodias levadas ao vento, muito além de toda a herança europeia, africana, asiática, pré-colombiana, muito além de toda a industrialização da comunicação musical ela agora vem de onde menos se espera. É como se uma caixa de Pandora das possibilidades sonoras tivesse sido jogada e fragmentada no planeta promovendo um infinito de possibilidades reveladas com a turbinação dos instrumentos, dos corpos, das aparelhagens, dos equipamentos das máquinas a partir das digitalizações, programações. De onde vem a música hoje? Vem do elevador despencando em cima de keyboards e violinos colados grudados no fundo do poço emitindo uivos de harmonia inusitada? Do ventilador enguiçando dentro do órgão de igreja, do fígado sendo transportado no isopor? Fricção do transplante? A música vem das máquinas musicais casadas, vem das máquinas musicais entranhadas em máquinas não-musicais mas cheias de ruídos, ritmo imperceptível, harmonia presente na dança dos fótons, nas novas freqüências descobertas com estetoscópios, telescópios, microscópios, detectores de sound metal na queda de um cacho de garfos numa piscina de acido sulfúrico. Os músicos nunca foram tão plásticos, tão filosóficos na sua tara por manipulações de memórias, de gravações de tudo, animal vegetal mineral metal, poltergeist metal, fóton no aquário improvisado. Tara na manipulação da cultura guardadas em caixinhas de zero/um. Nunca foram tão plásticos, tão marceneiros, tão siderúrgicos, vulcanos eletricistas e soldadores das memórias culturais da música em todos os tempos como agora. Fazem tratamento de canal nas musicas e nas aparelhagens como dentistas frankensteins da possibilidade sonora do objeto, do corpo, do instrumento, da música como máquina. Máquina inserida num übermuzak da máquina maior que é a mega cidade, a mancha urbana. Cabanas abstratas podem ser improvisadas com essa música de hoje. Parangolés de ambientação cerebral, stands mentais para visitação de freqüências inusitadas são criados a partir de pedaços de programação extraídos de velhas mobílias de estúdio, mesas de som como organismos de Rembrandt abertos para a dissecação. Música hoje em dia vem de tudo e de todos os lugares (pessoas, não pessoas, paisagens) devidamente abduzidos por programações e intervenções de gambiarrismos. TV e máquina de soldar acopladas ao saxofone. O encontro da maquina de costura com o guarda chuva antecipado imaginado por Lautréamont elevado a enésima potencia. O ready-made alucinado da musicalidade brutalizada ou suavizada pelas propagações da sua comunicação industrial mas também pelas tais cirurgias e dissecações de programação e memória. De onde vem a música? A musica agora é basicamente plataforma de freqüências mesmo sorrateiramente presente na musica popular. Mas de onde ela vem? De todo lugar. E como ela vem? Em forma de contundente, desconcertante, insinuante vírus de frequência criando novas pulsações para o seu cérebro, para o seu coração, para a sua imaginação alimentada pelos cabos invisíveis… das novas freqüências. Da, ainda assim chamada, música.

 
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